Relembro a quem não souber o que fazer no
próximo sábado à tarde, que pelas
17h30 vou estar em Lisboa, no auditório do
Campo Grande 56, para a apresentação do livro de minha autoria
a mesma cantiga de sempre. O
Pedro Sousa é quem vai apresentar o livro e vamos ler alguns poemas. Deixo aqui dois deles. Apareçam.
*
o regresso improvável
sufoque-se então toda a terra com cimento
será que ainda assim tão interna
eclodirá bravia a rasgar o chão
a memória toda verde e florida?
ainda que se construam parques
de passear a culpa
jardins da absolvição
só nascerá merda da merda
porque isto que fazemos não aduba
nem fertiliza
a memória vive dos pés no chão
desse pisar lento e copulador
até que o corte irrompa na planta do caminhar
e restitua o nervo o sangue a voz
então o jorro do afecto
como um voo de águia escorrerá a pique
fulgurando no córtex
as lamacentas noites do crocodilo
*
o tempo é uma miopia aflita que espreita a ilusão
uma cadencia maciça de passos sem rima
pelo pó pelo lodo
a planície turva
e tudo o que se apura é pelo desgaste
da unha raspando e negra
absorta nos três diamantes que se recolheram na infância
jardim escaldado
julgamo-nos pelo controlo
em que nos vamos emoldurando
no retrato de algumas paragens do corpo frio
em poses algemadas por objectos
há que cavar na cama uma lua cheia de agosto
essa caverna branca por reflexo
a saída daqui
trancar as pegadas no corredor aceso de ontem