Quando os erros estiverem todos gastos,/ Estará sentado, como último companheiro,/ Em nossa frente o Nada.
B. Brecht

Terça-feira, 22 de Maio de 2012

Lavanda

na caverna funda dos antigos
há histórias vivas nas paredes
luzes livres pelo ar
e o cheiro a lavanda


Quinta-feira, 17 de Maio de 2012

rega as tuas plantas

semear é sorrir no futuro. Por entre a terra
recordar amanhã.
O meu quintal é pequeno
e acredito que cobrir-lhe os muros
com vida
não é apenas um forma de
me alhear.

Quarta-feira, 2 de Maio de 2012

interrupção para publicidade


Relembro a quem não souber o que fazer no próximo sábado à tarde, que pelas 17h30 vou estar em Lisboa, no auditório do Campo Grande 56, para a apresentação do livro de minha autoria a mesma cantiga de sempre. O Pedro Sousa é quem vai apresentar o livro e vamos ler alguns poemas. Deixo aqui dois deles. Apareçam.


*
o regresso improvável

sufoque-se então toda a terra com cimento
será que ainda assim tão interna
eclodirá bravia a rasgar o chão
a memória toda verde e florida?

ainda que se construam parques
de passear a culpa
jardins da absolvição
só nascerá merda da merda
porque isto que fazemos não aduba
nem fertiliza

a memória vive dos pés no chão
desse pisar lento e copulador
até que o corte irrompa na planta do caminhar
e restitua o nervo o sangue a voz 

então o jorro do afecto
como um voo de águia escorrerá a pique
fulgurando no córtex
as lamacentas noites do crocodilo


*

o tempo é uma miopia aflita que espreita a ilusão
uma cadencia maciça de passos sem rima
pelo pó pelo lodo
a planície turva

e tudo o que se apura é pelo desgaste
da unha raspando e negra
absorta nos três diamantes que se recolheram na infância
jardim escaldado

julgamo-nos pelo controlo
em que nos vamos emoldurando
no retrato de algumas paragens do corpo frio
em poses algemadas por objectos

há que cavar na cama uma lua cheia de agosto
essa caverna branca por reflexo
a saída daqui
trancar as pegadas no corredor aceso de ontem

Terça-feira, 1 de Maio de 2012

Saldar o 1º de Maio


na rua onde trabalho só eu e os trabalhadores da selvagem cadeia de supermercados Pingo Doce estamos de serviço. Calculo que, tal como eu, a grande maioria dos empregados do supermercado não consigam contornar esta abominável ideia de se trabalhar aos feriados. Mas claro, o maior nojo ainda são aqueles que aproveitam o seu direito ao feriado para entupir tudo onde se possa consumir alguma coisa, fazendo com que outros trabalhadores sejam obrigados a trabalhar. No Pingo Doce aqui da rua as pessoas não conseguem sequer entrar e as que saem dizem às outras que não vale a pena lá ir que nem se conseguem mexer lá dentro.
Será que esta tarde vão estar na Alameda a celebrar o 1º de Maio metade das pessoas que estão no Pingo Doce?
Lembro-me das filas que havia à porta de certas casas nos anos 90 aqui em Faro para comprar heroína. Será que uma promoção num supermercado é assim tão irresistível? Será que as pessoas não compreendem que o que está em saldos é a sua própria vida?

Quarta-feira, 25 de Abril de 2012

dia de luta


Hoje não é dia de comemorações, é dia de luta. De luta por aquilo que poderíamos estar a comemorar e que cada vez está mais distante.
Eu estou preso no local de trabalho. Enquanto as pessoas que têm direito ao feriado usarem esse direito para ir às compras, ver televisão, ir ao café, pessoas como eu não terão direito a feriados. Nos feriados ocupam-se as ruas, os jardins, as avenidas.
Dia 1 de Maio será o mesmo: mais um dia de luta, mais um feriado a trabalhar.
Sempre ouvi dizer, mais ou menos assim, "quem luta sempre alcança, quem comemora só tem lembrança".

Quinta-feira, 19 de Abril de 2012

"a mesma cantiga de sempre", apresentações


Este sábado à noite, entre músicas, vou estar no Jazzimute, em Faro, a fazer leituras do meu novo livro e no dia 5 de Maio é o lançamento em Lisboa no auditório do Campo Grande, pelas 17h30, com apresentação do Pedro Sousa. Apareçam.